ATL 2017

ATL 2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Aliança mundial pela Mãe Natureza


Celebrando a diversidade


Uma linda e agradável manhã de primavera. Sob a sombra acolhedora de uma frondosa árvore de sucupira, típico do cerrado brasileiro, começam a fluir as energias do planeta aquecendo os corações sob um manto de belas cores estampadas  nas vestimentas, pinturas, adornos de dezenas de povos nativos das Américas, África, Ásia e Europa. 







A diferença de expressões, línguas, cantos e rituais é uma amostra do quanto podem os povos indígenas e seus aliados iluminar a cegueira do   modelo de desenvolvimento capitalista que está sendo imposto em nível mundial com violência e destruição que   ameaça as condições de vida em nosso planeta.
É muito oportuno que semelhante Assembleia mundial se realize, neste momento no Brasil,  pois estamos passando por um momento de extrema violência e agressão aos direitos dos povos indígenas, expressou uma das coordenadoras da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil-APIB. ‘Precisamos dar esse recado ao mundo e  contribuir  com o clamor pelo direito à vida  da natureza.


Em torno de 150 representantes de povos originários de quatro continentes iniciaram , no Centro de formação Vicente Canãs, em Luziânia, a primeira Grande Assembleia da Aliança dos Guardiães da Mãe Natureza. A Assembleia terminará dia 15 com a expectativa de se consolidar uma grande Aliança dos Guardiões da Mãe Natureza como contribuição concreta dos povos indígenas para a construção de um mundo em que todos os seres vivos possam viver em harmonia e paz.

Será um grande   momento de mostrar ao mundo novos caminhos de esperança a partir dos povos originários, suas sabedorias milenares e resistência secular.
Belas e fortes são as diferenças entre os milhares de povos sobreviventes no mundo. É uma mostra de que é possível  um outro mundo, onde os povos  “Originários de todos os continentes...temos o dever de construir pacificamente uma visão comum a fim de iluminar o futuro da nossa humanidade. Gratidão de ter vindo participar  da criação de uma aliança para a paz entre os seres humanos e a Natureza”

A espiritualidade une nossas vidas e nossas lutas

As manifestações rituais foram de uma beleza ímpar. Foram unanimes em se unirem no  espírito que garante a sobrevivência dos povos, mesmo que se encontrem submetidos a graves violências e extermínio, em todos os continentes. Desde o primeiro momento dessa primeiro dia da Assembleia mundial dos povos originários foi a continuidade de ações colonialistas, dominadores e invasoras dos territórios indígenas.


Estamos procurando descolonizar nossos filhos através de nossa educação. Aporem o difícil é descolonizar os brancos, afirmou uma liderança indígena norte americana. “Nossa luta  não é contra um governo, é contra um monstro muito maior que é o sistema capitalista”
As manifestações e rituais se deram todas ressaltando a necessidade de cuidar da Mãe Terra. E isso só nós povos originários com nossa sabedoria e espiritualidade sabemos fazer. Nós amamos a mãe natureza cuidamos dela e queremos construir essa grade aliança. Nas manifestações foram todas no sentido de buscar de todas as formas construir essa grande união dos povos.
Foram impressionantes os ritos e manifestações espirituais durante quase três horas, na sombra da árvore de sucupira. Apesar de todos os cenários de violência e destruição que marca a atual realidade em todos os continentes, houve manifestações de esperança e desejo de contribuir para salvar a natureza, a humanidade.

Egon Heck    fotos  Laila/Cimi


Brasilia, 11 de outubro de 2017




terça-feira, 10 de outubro de 2017

A luta dos povos indígenas contra velhos e novos fantasmas


A volta do monstro

Enquanto representantes da nação Timbira do Maranhão, representantes dos povos indígenas da Raposa Serra do Sol, de Roraima e dos Tupinambá, da Bahia, cumpriam uma intensa agenda de luta por direitos seus e dos demais povos originários do Brasil. Enquanto percorriam complicados e corro


mpidos meandros do poder foram informados de mais uma iniciativa genocida contra os povos indígenas. Parlamentares ligados ao agronegócio, informaram pela imprensa que o presidente Temer havia se comprometido com eles a liberar, via medida provisória, o arrendamento de terras indígenas já demarcadas.
O arrendamento foi a forma mais eficaz de o estado brasileiro, antigo SPI e mais tarde Funai, promover a invasão das terras indígenas na maioria das regiões do país. Essa prática genocida, só foi freada com a publicação do Estatuto do Índio, Lei 6001, de dezembro de 1973, aprovada após graves e contínuas denúncias de massacres dos povos indígenas.
Lembro-me quando em 1974 ajudei o chefe Posto Indígena Xapecó, no oeste catarinense, a preencher as notificações de fim do arrendamento. Medida que praticamente não teve eficácia, pois os arrendatários simplesmente deixaram de pagar a insignificante taxa de arrendamento tornando-se simplesmente invasores. Essa tem sido a prática nefasta em praticamente todas as terras indígenas no sul do país.
Na ocasião, também se repetia o cínico e criminoso discurso de que os povos indígenas não poderiam representar um ônus para o país, mas que as terras indígenas deveriam

desenvolver atividades produtivas e extrativistas para que com essa renda pudessem suprir os recursos necessários para a assistência aos povos originários. Ledo engano.  As terras indígenas passaram a ser rapidamente saqueados em seus recursos naturais, e a Funai se transformou numa empresa madeireira, mineradora, agronegócio, auferindo altos lucros e a situação de desassistência dos índios ficou ainda pior.
Será casual a volta do discurso do arrendamento, da exploração mineral e madeireira nas terras indígenas? A ditadura civil está querendo provar que consegue ser pior do que a ditadura militar, para os povos indígenas.
Não passarão
Os povos indígenas que estiveram toda a semana fazendo incidência em vários órgãos, ministérios e espaços dos três poderes, foram claros e incisivos em exigir o cumprimento da Constituição, não permitir nenhum retrocesso ou perda de direitos. Em especial chamaram atenção para a não demarcação e garantia dos territórios e o saque dos recursos naturais.
Deixaram claro que estarão cada vez mais unidos para fazer frente a essas ameaças e esperam contar com cada vez mais aliados dentro e fora do Brasil.
A delegação da Raposa Serra do Sul veio mostrar que a demarcação de seu território foi não apenas um acerto, mas também uma demonstração do quanto os povos indígenas têm a contribuir com a humanidade, enquanto guardiões da floresta e seus projetos de Bem Viver.

Apesar das sérias preocupações com a perversa política indigenista do atual governo e as perigosas manobras antindígenas nos três poderes, as delegações indígenas mostraram-se convictas de que com a sua sabedoria e espiritualidade conseguirão vencer mais essas investidas, depois de mais de meio século de violências e extermínios.

Brasília, 9 de outubro de 2017
Egon Heck  fotos Laila/Cimi
Missionário do Cimi


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Nação Timbira do Maranhão lutando em Brasília





 “Quanto mais a senhora fala, mais nos deixa preocupada”, expressou uma liderança indígena do Maranhão na audiência de mais de uma hora com a ministra Grace Mendonça, da Advocacia Geral da União – AGU. A ministra se desdobrou em dar a entender às 12 lideranças indígenas de cinco povos presentes na audiência, a boa vontade do governo em demarcar as terras indígenas: “Posso garantir a vocês que em conversa com o presidente 

Temer, ele externou seu desejo de demarcar as terras indígenas”.


Nas entrelinhas, a ministra da AGU deixou a entender que existe a intenção do atual governo em implementar a exploração de recursos naturais e de projetos de produção do agronegócio nas terras indígenas já demarcadas.
Quanto à pretensa boa vontade de Temer em demarcar as terras indígenas, as lideranças foram taxativas: “O governo não tem interesse em demarcar as terras indígenas, pois caso tivesse efetivo interesse já teria demarcado”.

 O calcanhar de Aquiles

 A ministra insistiu nos possíveis benefícios que o Parecer 001/2017, editado pela AGU a partir de solicitação da Casa Civil da Presidência da República, poderia trazer aos povos indígenas. A intenção do mesmo seria defender os direitos indígenas. Segundo a ministra, ao contrário do que alguns procuram difundir, o parecer não faz nenhuma referência ao Marco Temporal. Ao contrário, a intenção foi dar segurança jurídica à demarcação das terras indígenas.




As lideranças Tupinambá, da Bahia, deixaram registrado sua preocupação com relação à não demarcação das terras Indígenas de seu povo e foram incisivas em reafirmar que todos os procedimentos administrativos já foram realizados, inclusive o levantamento fundiário, tendo a própria comunidade colaborado com esse processo. Aguardam a urgente assinatura. “Até quando teremos que esperar”, perguntam, angustiados e revoltados.
Com relação aos reais interesses do governo, as lideranças deixaram claro que, além de não demarcar, o governo Temer tem sinalizado com a possibilidade de abrir as terras já demarcadas para a exploração pelas mineradoras, madeireiras e o agronegócio.
Ao finalizar o encontro manifestaram suas preocupações com relação ao presente e futuro, pois os interesses econômicos e o governo não tem preocupação com a natureza que está sendo destruída. “Continuaremos resistindo ao Parecer da AGU por entender que ele é maléfico para os povos indígenas. Estamos sendo afrontados a todo momento, lá na ponta, nas comunidades”, lembrou uma liderança Tupinambá.
A ministra Grace Mendonça afirmou “que nenhuma decisão será tomada sem prévio debate com os povos indígenas. Se preciso for rever algum ponto do parecer não tem problema, será feito”.

Egon Heck    fotos Laila/Cimi


Missionário Secretariado Nacional

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Povos da resistência e da esperança seguem em luta




Nas asas da primavera chega o grito de socorro da Terra Indígena Ypo’i/Triunfo, na fronteira do Brasil com o Paraguai.  Da Amazônia, da terra indígena Vale do Javari, do alto rio Jandiatuba, na divisa do Brasil com o Peru, chega, envolta em brumas e nevoeiros, a notícia do massacre de mais de 10 índios flecheiros. O massacre é atribuído a garimpeiros que invadiram aquela região onde vivem mais de uma dezena de povos indígenas “isolados” (em situação de isolamento voluntário).



Do clamor das lideranças Kaiowá Guarani do Ypo’i/Triunfo, ressurge com vigor a memória do assassinato dos professores indígenas Genival e Rolindo Vera. O corpo de Rolindo até hoje não foi localizado. O mesmo acontece com relação ao corpo do cacique Nisio Gomes. Se nessas regiões totalmente devastadas do nosso país, as autoridades e a justiça não conseguem localizar os corpos, não fica difícil imaginar o que se passa no interior da floresta amazônica com os grupos isolados.  Parece muito cinismo e descaramento de uma sociedade que insiste em decretar a morte a seus povos originários. Não existem corpos, portanto a ação genocida vai ser enterrada na vala comum do esquecimento. Mais um massacre indígena ficará encoberto pela truculência do projeto colonizador que impiedosamente veio exterminando centenas de povos, milhões de pessoas originários destas terras.


De várias regiões do país chegam os gritos de socorro dos povos nativos deste país. A denúncia foi levada pelos povos indígenas do Brasil à ONU por diversas vezes.  Ainda neste mês de setembro, Voninho Kaiowá Guarani, denunciou na ONU a grave situação por que passa seu povo e a maioria dos povos indígenas do Brasil. A embaixadora do Brasil, nesta instância internacional tentou se apressar em desmentir tão escancarado cenário de violência e desrespeito aos direitos elementares dos povos indígenas do país.

A esperança que renasce na resistência diária e na profunda espiritualidade dos povos originários


 A procuradora Geral da República, Raquel Dodge, que há poucos dias tomou posse, tem demonstrado grande sensibilidade com a causa dos povos indígenas, meio ambiente, direitos humanos, populações tradicionais dentre outros.
“Além da questão indígena, o grupo montado por Raquel para atuar pelos direitos de minorias também definiu como prioridade fazer valer o cumprimento de tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário” (O Globo, 24/09/17).


A Aty Guasu das Mulheres Kaiowá (Aty Kuña) Guarani, no Mato Grosso do Sul, que contou com a presença e apoio de mulheres de outros povos e até mesmo representante da ONU, tem sido mais um marco na luta desses povos submetido a um processo de genocídio. No documento Final renovaram a decisão de resistir e lutar de forma permanente por seus direitos, especialmente a terra.




“Se o governo não concluir a demarcação de nossas terras, vamos continuar retomando nossos tekoha. Nós mesmo vamos demarcar as nossas terras”, ressalta Leila Rocha, liderança do tekoha Yvy Katu, localizado em Iguatemi (MS).
O bem viver e a construção de redes de cuidado
“Para tanto, propomos pensar sobre o que podem significar as redes de cuidado para cada uma e um dos participantes e suas organizações ou comunidades, e quais as estratégias de construção de processos de agregação, apoio mútuo, fortalecimento das comunidades, das autonomias, dos processos reivindicativos sobre o Estado, e a ampliação da compreensão do território, articulação entre diversos movimentos etc.” (Encontro Internacional sobre o Bem Viver, São Luís, Maranhão, início de agosto 2017). 

Além das partilhas de vida, lutas e experiências de resistência e insurgência foi realizado um expressivo intercâmbio com a comunidade quilombola de Santa Rosa dos Pretos, uma das inúmeras comunidades atingidas mortalmente pelo projeto Carajás.
Na atual conjuntura, alguns temas como autodefesa, autodemarcação dos territórios e autonomia se 
tornaram urgentes e vitais.




Representantes dos povos indígenas Munduruku do Pará e Gamela do Maranhão trouxeram cartas e documentos com suas exigências e reivindicações. Diante das ameaças de construção de hidrelétricas e de invasões, o movimento de mulheres Munduruku afirmou:
“Estamos olhando vocês. Não podem se esconder dos nossos olhos. Neste território vocês não vão entrar. Sabemos que o governo doente quer voltar e o governo podre quer ficar. Nenhum dos dois merece a confiança de nenhum povo. Em toda parte que vamos tem as armadilhas do governo. Nós mulheres sabemos que vai ter muita dificuldade, mas nossa força é nosso Movimento”.
Brasília, início da primavera 2017


Egon Heck


Cimi Secretariado 

sábado, 19 de agosto de 2017

Vitória dos Povos indígenas, da espiritualidade





No final do dia 16 de agosto mais uma data importante na histórica resistência dos povos originários do Brasil. A instância máxima da justiça, o Supremos Tribunal Federal STF diz não às pretensões do Estado do Mato Grosso, de indenização pelo reconhecimento de terras indígenas do Parque do Xingu, dos Nambikuara, dos Pareci e dos Enê Nauwê.  Foi a vitória do direito dos povos indígena às suas terras tradicionais. Foi um não à pretensão dos inimigos dos índios de impor a leitura inconstitucional do “Marco Temporal”.


 Lágrimas de alegria


Ao ser proferido o último voto dos 8 Ministros do Supremo os mais de cem indígenas presentes no plenário  deixaram o local envoltos em revoadas de esperança,  de rituais e gritos pela vitória. Rejeição unânime. Vitória de séculos de resistências, de dias de intensos rituais e a certeza da vitória. Quantas já foram  a lágrimas derramadas ao verem suas lideranças e guerreiros assassinados,  seus filhos chorando de fome ou terem suas vidas ceifadas pela total desassistência do Estado, pela omissão da justiça, pelas mortíferas leis forjadas na calada da noite pelo poder legislativo ou executivo.


Vários indígenas, especialmente Kaiowá Guarani, do Mato Grosso do Sul, não conseguiram conter as lágrimas que regaram os corações dos Ministros do STF. “Entramos na cabeça deles” afirmou um dos Nhanderu (rezador) ao se referir  às intensas horas de rituais e rezas para amolecer a consciência e os corações dos Ministros.  Ou como afirmou um Nhanderu (líder religioso Kaiowá Guarani. “Nosso ritual Purahei é para limpar os pensamentos e corações dos Ministros. Para fazer justiça e reconhecer os direitos históricos constitucionais, consuetudinários e sagrados dos povos indígenas, às suas terras. “Nós não somos apenas da terras. Somos a terra. E sem ela não vivemos”, declarou uma das lideranças presentes na praça dos Três poderes, durante a semana passada. Foi  uma vitória mais do que política, foi uma vitória da nossa espiritualidade, da força da resistência dos nossos lideres religiosos.


Vitória da vida, da união





 Indígenas, quilombolas e das populações excluídas desse país.  Foi uma sinalização de que é possível construirmos um outro país, com as vozes e jeitos plurais, com a união da sabedoria e resistência secular ao projeto invasor e colonizador.  Fomos oxigenados em nossa esperança e desafiados a ampliar a nossa luta permanente com todas as formas de opressão e exclusão. Que os Projetos de Bem Viver iluminem nossos horizontes e alimentem nossas estratégias de um outro país e mundo são possíveis e urgentes.
Anciões e crianças, jovens e mulheres, guerreiros(as)  todos contribuíram com essa importante batalha nessa guerra sem trégua, na qual essa vitória foi importante, porém já num horizonte bem próximo são visíveis  duros embates.  É a PEC 215 que está engatilhada. É a portaria 001/2017 que o presidente Temer acabou de assinar e impor . O PL 1610, tentando escancarar as terras indígenas à ganância da mineração e assim por diante.  É fundamental continuar mobilizados e estar atentos às manobras dos inimigos, que sempre procuraram nos dividir para dominar.

 “Agora  posso morrer em paz”

Com essa  expressão a anciã  Terena, de 86 anos,  quis manifestar a importância de ainda conseguir participar dessa importante vitória indígena nesse momento histórico da resistência e afirmação de direitos dos povos originários.




Com muito esforço, com auxílio de sua bengala e mãos amigas ela conseguiu estar nesses dias na praça dos três poderes e no plenário do Supremo Tribunal Federal. No final do mês de julho dona Esther enviou um documento à Ministra presidente do STF, Carmem Lucia, ao Ministro da Justiça e ao Papa Francisco denunciando as barbaridades que os povos indígenas estão sendo vítimas, e pedindo socorro ! “A terra é nossa vida, nossa liberdade, o mais sagrado para nós indígenas, e estão tentando nos tratar como animais, nos deixando encurralados em minifúndios, para favorecer grandes agricultores....Lutamos por algo que não deveria existi luta por ser direito natural. No entanto, até nos dias de hoje estamos sobrevivendo  a COLONIZAÇÃO CONTÍNUA”, para não dizer, GENOCIDIA INDIRETO!”


Egon Heck    fotos Laila/Cimi
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 18 de agosto de 2017







quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Dia Internacional dos Povos Indígenas: passa o tempo, persiste o genocídio



A impressão que temos é que a história se repete. Para os povos indígenas, o que os fatos narram é um constante genocídio. Desde a usurpação da América, o que contam as ocorrências é uma realidade de perseguição e mortandade. Ano após ano. Século após século. Hoje deveria ser diferente, mas infelizmente não é. Depois das perseguições e escravismo, do aldeamento, da tutela, trazem para debate marcos teporais para os direitos que são originários, que precedem inclusive o Estado. Novamente, são teses analisadas e aplicadas em nome dos dominantes.
“Nós estamos voltando na Ditadura Militar, meus avós contam como é que os indígenas eram tratados na história. Hoje é a história que se repete. Volta o genocídio dos povos indígenas”, professa Eliseu Kaiowa Guarani.

Num contexto de retirada de direitos, como sinal de resistência, germinam feitos de esperança. Dia internacional dos povos indígenas: a presente semana é tempo de intensificar as lutas. Indígenas em todo o Brasil mobilizam-se contra o Marco Temporal. Junto a eles, entidades e parceiros escancaram as violações dos direitos indígenas em debates e conversas. Na segunda-feira (07), a Comissão de Justiça e Paz de Brasília (DF) reuniu aos fundos da Catedral Metropolitana de Brasília (DF) mulheres e homens para uma “Conversa Justa”. Cleber Buzatto, secretário executivo do Cimi, e Elizeu Kaiowá Guarani, secretário da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), conduziram o momento.  


Cleber Buzatto trouxe a análise sobre a conjuntura. Apresentou as realidades de forma crua e violenta, realismo do que é vida dos povos indígenas na “pátria amada, Brasil”. Casas de lonas em retomadas de territórios sagrados. Crianças indígenas que vivem em espaços que são alagados, que sofrem com o frio a beira de BRs por não contarem com uma política efetiva de demarcações das terras. Massacres regidos por pistoleiros. Na realidade, essas não são ausência do estado, mas presença de um poder que negocia somente com os colonizadores, como lembra Cleber:

“O atual governo não tem qualquer tentativa de conversação com os povos indígenas. Todas as ações dos governos têm sido acertadas entre Michel Temer e os ruralistas. E diante a conjuntura, onde Temer precisa se blindar para não ser investigado, tudo o que a bancada ruralista tem pedido o governo tem atendido. A cada semana tem uma nova ação nociva contra os povos indígenas, quilombolas, campesinos, trabalhadores sem terras”.  – Cleber Buzatto



Elizeu Lopes Guarani Kaiowa retoma a narração da história – e confirma que ela é cíclica. “Não temos mais para onde correr. Antigamente quando éramos atacados nos refugiávamos na mata. Agora no Mato Grosso do Sul só tem boi e braquiária, cana, soja e eucalipto. Temos que enfrentar os jagunços e fazendeiros”. A liderança indígena confirma as imagens apresentadas por Buzatto. “O que vocês viram em vídeo, é o que eu vivo diariamente. Essa é a nossa vida por não podermos contar com um Estado que se diz Nacional”.


Na manhã de ontem, terça-feira (09), outro pingo de esperança. A Audiência Pública realizada no Senado Federal, organizada pela Comissão de Direitos Humanos, integrou a série de iniciativas que debatem e solidarizam-se aos Direitos dos Povos Indígenas. Nos dois eventos - Catedral e Senado - foram feitas denúncias contundentes sobre as violências contra os povos indígenas em todo o país. Não há dúvida: o atual cenário é de violação e tentativa de supressão de direitos. Mesmo que as hostilidades com a vida dos povos indígenas sejam “atemporal”, vivemos o tempo considerado o mais grave das últimas décadas, inclusive mais agressiva do que o período dos anos de chumbo. Elizeu Guarani Kaiowa estava certo.
  



“O que podemos fazer?”, questionou uma senhora na Conversa de Justiça e Paz. Como ações concretas, estendeu-se o convite para que digamos juntos: Não ao Marco Temporal. A sociedade civil foi convidada a somar-se nos atos previstos para esta semana de mobilização. Centenas de indígenas e quilombolas de várias regiões do país estão em Brasília nos próximos dias. No mesmo tempo, estão previstas manifestações dos povos indígenas, quilombolas e outras populações e povos tradicionais em todo o pais. De norte a sul criaremos uma grande corrente de solidariedade e energia para que os povos indígenas tenham seus direitos tradicionais – sem marcos temporais – assegurados pela decisão do Supremo Tribunal Federal. Rituais e rezas conduzirão a peleja que nunca cessa.

Violência e violações

Foram relatados inúmeras situação de massacre e genocídio nos encontros que aconteceram nos últimos dias. A presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Lia Zanotta, ressaltou a perseguição daqueles que trabalham para denunciar as violações dos direitos indígenas. “Se criminaliza antropólogos e aliados dos povos originários para atingir e suprimir direitos indígenas”.


Luciano Maia, da 6ª Câmara do Ministério Público Federal (MPF), repartição destinada a assuntos referentes a povos indígenas e comunidades tradicionais, apontou na Audiência Pública do Senado o descaso do atual governo para políticas de promoção a vida dos povos. “Os povos indígenas sabem que nada podem esperar do governo, por isso ainda tem alguma confiança na justiça”, afirmou ao retratar a difícil conjuntura. “Estado brasileiro vem incrementando uma política de extermínio dos índios. Isso se dá especialmente pela não demarcação e respeito das terras indígenas”, relatou.

Muito além de 1988

Apesar desse cenário tétrico, em momento algum os povos indígenas têm desistido de lutar por seus direitos ou de desenvolver suas estratégias de enfrentamento para a garantia de sua vida/território. Juntamente com seus aliados, estão articulando campanhas, visitas, debates e realizam muitos rituais. Sabem que não estão sozinhos nesses embates. Contam com a sabedoria milenar e a força dos espíritos de seus ancestrais que viveram e vivem nessas terras de Abya Yala, a Ameríndia. A pergunta: qual a herança para as crianças? Eles são herdeiros da luta.

Nas andanças e enfrentamentos às políticas de morte, permanece a certeza: o direito dos povos indígenas é originário. Essa é uma garantia presente na Constituição Federal de 1988, mas que se estende pela história das comunidades e povos tradicionais. Por isso, a campanha “Nossa história não começa em 1988” lembra a todas instâncias de poder do Brasil que tradicionalidade não se negocia. 

Não ao Marco Temporal
Demarcação Já

Por Hegon Heck, do secretariado nacional- agosto 2017
Fotos Laila Menezes


Alerta máximo



Graves ameaças pairam sobre os povos indígenas.  E não é apenas a desconstrução de direitos constitucionais, mas são também projetos de saque dos recursos naturais, principalmente minérios e madeira.
Estão em curso negociações envolvendo ministérios e órgãos federais, como a Funai.
Essas ameaças se materializam em  iniciativas anti indígenas  nos três poderes do Estado

Três minutos com o general presidente da Funai

Apesar de estar agendada audiência com uma delegação de lideranças estes  foram recebidos por funcionários do órgão. Após insistência dos indígenas para falarem com o presidente da Funai, este foi logo dizendo que  poderia recebe-los apenas por alguns minutos, pois já tinha agenda com o Ministro da Justiça. Pediu às lideranças que fossem objetivos em suas manifestações. E ao receber um documento com as principais questões a serem debatidos, foi logo avisando “ Deixa passar logo uma informação.  Há poucos dias recebi uma delegação de liderança indígenas de Rondônia acompanhados de três procuradores federais da República. Todos foram unânimes em pedir a regularização da exploração mineral em terras indígenas. Esse mesmo pleito já havia sido feito pelos indígenas do Alto Rio Negro-AM. Diante da imediata reação dos indígenas manifestando sua  firma postura contra semelhante iniciativa, o general foi logo tentando acalmas as lideranças “Mas não precisam se preocupar, pois a mineração só acontecerá   onde for solicitada, não será para todos os índios”. Informou que na próxima semana estará indo para Rondônia.

A soma genocida



Em vários momentos foi alertado na imprensa,  pelo movimento indígena e aliados,  as consequências etnocida e genocidas da desconstrução e retirada de direitos constitucionais dos povos indígenas, articuladas pelas bancadas dos 3 B – Boi, Bala e Bíblia.(setores evangélicos). Essas iniciativas estão sendo reforçadas por 3 M – Mineradoras, Madeireiras e Militares ( alguns setores). Quem presenciou  o saque feito pelo setor madeireiro nas terras indígenas do sul do país, principalmente das araucárias e madeiras de lei, pode imaginar o que acontecerá na maioria das terras indígenas da Amazônia. Não menos assustador é prever as chacinas dos povos indígenas que ocorrerão em função da insaciável sanha do setor mineral, nacional e internacional. Basta lembrar  a tragédia ocorrida na década de 80 quando se estimou a morte de 1.500 Yanomami em função da invasão de seu território por aproximadamente  40 mil garimpeiros ( mantidos por empresários do garimpo).
O plano de Geopolítica implantado a partir do Projeto Calha Norte em meados da década de 80, previa uma política indigenista especial, que dentre outras coisas previa a transformação das terras indígenas em ilhas e colônias, Impedir a criação de áreas extensa, que poderiam comprometer a segurança nacional, alé dos planos de “fronteiras vivas”, ou seja estimular e fixar na faixa de fronteira “brasileiros” e não indígenas, que não tem nacionalidade, conforme afirmou, em  janeiro de  1980, o brigadeiro Protásio.
  

É bom lembrar que em 1987 o então presidente da Funai, Romero Jucá, atualmente senador, já havia concedido autorização para empresas madeireiras explorarem madeira em terras indígenas de Rondônia.

Agosto indígena

Diante desse quadro aterrorizante os povos e o movimento indígena tem organizado uma intensa pauta de mobilizações e manifestações nas regiões e em Brasília. Em a certeza de que poderão contar com o efetivo apoio da sociedade nacional que também estará levando adiante suas lutas contra o golpe e as ameaças de retrocessos. A Apib – articulação dos Povos Indígenas do Brasil, está fazendo uma convocatória a todas as pessoas de boa vontade e lutadores por um Brasil  onde todos possas  viver em paz com justiça e o Bem viver como horizonte estratégico para um novo país.
O agosto indígena, quando no dia 9 se comemorará o dia internacional dos Povos Indígenas, será mais um momento importante da secular resistência  dos povos originários.


Egon Heck
Fotos Laila Menezes
Cimi – Secretariado Nacional -  agosto de 2017